O que deveria ser símbolo da cultura popular alagoana virou alvo de vandalismo na orla de Maceió. A escultura “Boi Bumbá”, do mestre artesão capelense João das Alagoas, foi parcialmente queimada na última semana na Avenida da Paz, no bairro do Jaraguá. A obra integra o Circuito Alagoas Feita à Mão e está instalada em área pública da capital.

Patrimônio Vivo de Alagoas, aos 68 anos, João Carlos da Silva Freitas é reconhecido como um dos escultores mais relevantes do estado. Nascido em Capela, construiu trajetória marcada por peças em barro e cerâmica. 

A réplica gigante do Boi Bumbá, no entanto, tem cerca de seis metros de altura, sendo produzida em isopor naval e fibra de vidro, materiais escolhidos para resistir às condições do litoral.

Segundo o mestre, sua inspiração sempre esteve ligada ao povo e às paisagens alagoanas. Ele diz que se inspira no cortador de cana, no guerreiro, nas praias e também em artistas como Mestre Verdinho e Portinari.

A peça vandalizada é um retrato dessa influência. A escultura apresenta uma base cúbica com a cabeça de um boi. Ao redor, estão representados vaqueiros, brincadeiras populares e elementos simbólicos do estado.

“Eu uso para fazer mensagens criativas sobre o folclore, o sistema de Alagoas, coisa nossa, é tudo Alagoas. Ali tem a cavalhada, tem brincadeiras de criança e paisagem, como vamos dizer, o farol, aquele farol na beira da praia, a sereia e algumas peças, que é coisa nossa, principalmente o nosso folclore”, afirma.

 

João das Alagoas diz que obra vandalizada pode despertar um olhar mais atento para a preservação – Foto: Itawi Albuquerque

 

O ataque configura dano ao patrimônio, tipificado no Código Penal. Por se tratar de obra ligada a um Patrimônio Vivo de Alagoas, o caso também pode ser enquadrado como crime contra o patrimônio cultural, previsto em legislações federais e estaduais.

Câmeras flagraram o incêndio

O momento em que a escultura foi atingida pelas chamas foi registrado por câmeras de videomonitoramento instaladas na região. As imagens mostram um homem se aproximando da parte traseira da estrutura. Minutos depois, surge fumaça na base e, em seguida, o fogo se espalha, causando danos à peça.

Os registros, captados por totens de monitoramento, foram encaminhados à Polícia Civil de Alagoas e já integram o inquérito que apura o caso. O delegado Robervaldo Davino informou que o material pode auxiliar na identificação dos envolvidos. Até o momento, ninguém foi preso.

De acordo com a subsecretária de Segurança Cidadã, Talyta Nobre, o sistema identificou a ocorrência e o conteúdo foi imediatamente reunido e enviado às autoridades competentes. “O material foi encaminhado para que as medidas cabíveis sejam adotadas”, afirmou.

A Secretaria Municipal de Segurança Cidadã informou ainda que a Guarda Civil Municipal mantém rondas preventivas no Jaraguá, área de grande circulação de moradores e turistas. O caso é investigado como crime contra o patrimônio cultural.

Processo de restauração

Após o incêndio, o Governo de Alagoas iniciou os procedimentos para restaurar a escultura. No último sábado (21), a equipe técnica do programa Alagoas Feita à Mão esteve no local para avaliar os danos e dar início às medidas de reestruturação.

A recuperação prevê reconstrução da parte interna com reforço em madeira e ferro, aplicação de isopor náutico, novo revestimento em fibra de vidro e pintura. A parte superior da cabeça do boi, que cedeu, será refeita. A previsão é que o serviço seja concluído em até dez dias.

Com seis metros de altura e produzida com materiais resistentes ao sol, à chuva e à maresia, a obra integra o circuito que leva arte popular a espaços públicos de Maceió e reforça a valorização da cultura regional.

“Dano à memória coletiva”, avalia historiador

Para o jornalista e presidente da Federação das Organizações da Cultura Popular e do Artesanato Alagoano (FOCUARTE), João Lemos, o vandalismo atinge não apenas uma obra, mas a arte alagoana como um todo.

“As obras de arte são necessárias para equilibrar a paisagem da cidade. Elas nos levam ao encontro espontâneo do lúdico, enriquecendo a nossa memória e o pertencimento cultural”, afirmou.

Segundo o presidente, as perdas para a sociedade são amplas e vão além dos danos materiais. “O povo acaba por perder um pouco da sua história, reforçando às vezes alguns discursos que não vê na cultura uma potência econômica e transformadora da sociedade”, disse.

 

João Lemos defende políticas públicas mais consistentes para a proteção do patrimônio cultural – Foto: Divulgação

 

Para Lemos, o caso também evidencia a necessidade de políticas públicas mais consistentes de proteção ao patrimônio cultural. “A gente já não tem uma política de proteção incisiva que realmente realize um trabalho de salvaguarda, essas iniciativas que vandalizam a história e a arte acabam por banalizar e até relativizar a importância da cultura”, pontuou.

O jornalista defende ainda a criação de instrumentos legais mais robustos. “Precisamos de mais políticas públicas que assegurem fomentos permanentes a nível estadual e municipal. Não temos leis que assegurem esse direito e proteção. Há estados no Brasil que têm programas sérios de proteção ao patrimônio, leis de fomento à salvaguarda das tradições. Aqui não é o caso”, acrescenta.

Alerta para preservação de obras públicas

Apesar do episódio, João das Alagoas não adota um tom pessimista. Para ele, o ocorrido pode despertar um olhar mais atento para a preservação das obras públicas no estado.

“De perder, eu acho que não perde não. Nem sempre vem um mal que depois não venha um bem. Porque aí as pessoas vão ter que cuidar mais também. Não é difícil fazer essas coisas, né, de cuidar de vandalismo, e vão cuidar mais, eu acredito que agora vão cuidar não só da minha como de outras obras, que são expostas aí ao público, né?”, finaliza.

*Estagiária sob supervisão da editoria