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O infarto pode ser desencadeado por infecções respiratórias agudas. A conclusão é de um estudo financiado por um instituto de pesquisa canadenses e publicado em uma das mais prestigiadas revistas científicas, The New England Journal of Medicine.

A relação entre infecções respiratórias e infarto já tinha sido apontada por estudos anteriores, mas esta é a primeira pesquisa a usar métodos específicos para medir e confirmar em laboratório a infecção por influenza em pacientes que infartaram.

Os pesquisadores acompanharam e avaliaram o histórico médico de 364 pessoas que foram hospitalizadas por infarto agudo do miocárdio e que tiveram confirmado o diagnóstico de gripe influenza no período entre um ano antes e um ano depois de enfartar.

Do total, 20 pacientes sofreram o infarto uma semana depois do fim da infecção - esse foi determinado como o período de risco pelos pesquisadores.

O resultado mostrou que o risco de hospitalização por infarto é 6,05 vezes maior nos primeiros 7 dias após o influenza, quando comparado aos períodos de 1 ano antes ou depois da infecção.  

Influenza x infarto

O que faz o influenza ser um gatilho para o infarto é o efeito direto e indireto que ela exerce em diversos órgãos e que causam alterações em seu funcionamento.

Primeiramente, é preciso explicar que a influenza é uma doença aguda, que evolui rapidamente e dura por um período variável de tempo. Durante este tempo, a pessoa passa por um quadro febril e de taquicardia que leva à liberação de proteínas chamadas de citocinas – moléculas que exercem papel importante na regulação do sistema imunológico e que atuam nos vasos sanguíneos.

A infectologista Nancy Bellei, da Unifesp, explica que essas proteínas podem levar a uma vasoconstrição, com esse estreitamento, o volume de sangue que passa pelos vasos é menor.

“Aqueles indivíduos que já tem uma doença cardíaca, uma arterioesclerose coronariana, ele já tem uma obstrução nos vasos. Se ele fizer uma alteração clínica secundária à influenza, que determina a diminuição de fluxo de sangue numa coronária que já é obstruída, vai diminuir o aporte de oxigênio e ele pode ter um infarto”, explica a médica.

A sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, explica que, além disso, a infecção aumenta as demandas metabólicas, o que também leva ao baixo nível de oxigênio no sangue, queda da pressão arterial ou outra alteração no sistema vascular que podem ocasionar uma obstrução e, consequentemente, síndrome aguda coronária.  

Ou seja, a doença coronariana já é, por si, uma doença inflamatória. Quando a pessoa tem uma infecção por influenza, essa situação de inflamação se agrava, exige muito do organismo, e pode levar ao infarto. Por isso, pessoas que já possuem comprometimentos no sistema cardiovascular estão mais suscetíveis a um infarto logo depois do influenza.

Nancy também destaca que estudos recentes experimentais revelaram que o vírus influenza pode replicar tanto no miocárdio quanto nas células cardíacas e no endotério – a célula da parede da coronária. “Então, você teria efeitos diretos e efeitos indiretos que poderiam levar alguém que tem já uma doença coronariana a ter um infarto. Por isso, o estudo canadense mostrou que uma semana antes do infarto existe a associação com a influenza, ou seja, alguém que tem uma gripe, pode ter o infarto uma semana depois”.

Como evitar o infarto?

Uma pessoa que apresenta problemas cardiovasculares e é infectada pelo vírus influenza precisa tratar a infecção o mais rápido possível.

“Essa é a primeira coisa, porque quanto menos vírus a pessoa tem, menos vai ser a liberação dessas substâncias, das citocinas, a febre e a taquicardia vão durar menos tempo, então essa situação como um todo vai melhorar.

A médica Ana Freitas Ribeiro destaca que o ideal é evitar a contaminação e a melhor forma de fazer isso é por meio da vacina contra o influenza, que precisa ser tomada todos os anos.

Pessoas com doenças crônicas fazem parte do público-alvo da campanha nacional de vacinação e podem tomar a dose, gratuitamente, em uma unidade de saúde do SUS. “São pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis, como doença respiratória crônica, doença cardíaca crônica, doença renal crônica, doença hepática crônica, doença neurológica crônica, diabetes, imunossupressão, obesos, transplantados e portadores de trissomias”, detalha a sanitarista.

A campanha nacional de vacinação começou no dia 23 de abril e vai até 1º de junho. A aplicação das doses vai seguir um calendário estipulado pelo Ministério da Saúde: